Câncer de próstata em ciclistas: mitos e verdades

por Alessandro Lucchetti - ativo.com
 

Novembro se foi. Mas o Novembro Azul, campanha internacional de conscientização abraçada por várias entidades que se dedicam a alertar os homens sobre a necessidade do diagnóstico precoce do câncer de próstata, chega ao final sem deixar de tomar de preocupações a cabeça do ciclista mais desinformado. Afinal de contas, há uma maior propensão de câncer de próstata em ciclistas? Quem pedala deve estar ainda mais vigilante e talvez até antecipar a consulta ao urologista para marcar seu exame de próstata e aquele que aponta a quantidade detectada no organismo de PSA, o antígeno prostático específico?

Para o urologista Franz Campos, que é ciclista e chefe da seção de Urologia do INCA (Instituto Nacional de Câncer), não há muito crédito no trabalho científico que suscitou essa preocupação sobre a incidência de câncer de próstata em ciclistas. “Essa relação entre câncer de próstata e ciclismo, aventada por uma pesquisa realizada pela Universidade de Londres em 2014, demonstrou um leve aumento de câncer de próstata em ciclistas com atividade intensa (mais de 8h/semana). Um único estudo, com dados não significativos de elevação, não pode ser colocado como verdade absoluta. O que ocorre realmente são microtraumas na região do períneo que teoricamente levariam a um aumento da proteína produzida pela próstata (o PSA), o que não é critério para diagnóstico de câncer de próstata. Não há evidência científica comprovada dessa hipótese.”

O doutor Franz salienta que a orientação que deve ser dada aos ciclistas é a mesma que cabe a todos os homens que já completaram o 50º aniversário. “Para quaisquer homens, o mais importante é a faixa etária. Quem tem mais de 50 anos deve procurar um urologista para conversar sobre o diagnóstico precoce dessa terrível doença”. Mas o que foi dito até aqui pelo doutor Franz não exime os ciclistas interessados de cuidar bem de sua saúde e procurar bons acessórios para proteger a região do períneo (região que constitui a base do púbis, onde se situam os órgãos genitais e o ânus). “Esses acessórios (bermudas especiais e bretelles) têm grande importância na dissipação do calor, na proteção contra os microtraumas perineais e no conforto do ciclista. Sempre que possível utilizo tais recursos em minhas pedaladas diárias. Mas a maior proteção continua sendo a vida saudável, cuidados alimentares e atividade física regular. Pedalar – em qualquer idade – continua a ser um dos exercícios mais seguros e saudáveis que podemos praticar.”

Especialista em oncologia clínica e oncologista do Grupo COI, o médico Diogo Augusto Rodrigues da Rosa ressalta ainda que há alguns casos em que os homens devem se dirigir ao consultório do urologista para verificar a quantas anda a saúde da próstata antes mesmo de completarem os 50 anos de idade. “Quem tem histórico familiar de casos de câncer de próstata envolvendo pai ou irmão deve antecipar esse procedimento e marcar uma consulta quando já tiver 45 anos. Os afrodescendentes também devem tomar essa providência quando já tiverem 45 anos”, diz o doutor Rosa.

Algumas providências devem ser tomadas por quem tem exame agendado. Os homens devem se abster de relações sexuais nas 72 horas que antecedem a colheita do material para o exame. Os ciclistas devem ficar sem pedalar por duas semanas antes da data agendada para exame. Pedalar e ter relações sexuais são atividades que alteram a quantidade de PSA e podem alarmar os homens que se submetem a exames. Eles poderão acreditar que têm câncer de próstata sem contudo realmente padecerem do problema.

Segundo Rosa, médico cadastrado na plataforma Doctoralia, a utilização de um banco ergonômico na bike evita a compressão da próstata. “Caso se comprima a próstata ao pedalar, haverá liberação de PSA no sangue. Não existe prova de que isso signifique risco de desencadeamento de um quadro de câncer de próstata em ciclistas. A confusão é muito comum. Muitos acreditam que, se comprimirem o períneo, correrão risco maior de ter câncer de próstata, mas isso apenas vai alterar a quantidade de PSA”, explica o médico, concluindo que pedalar, na verdade, é um hábito saudável que contribui para atacar fatores de risco não só para o câncer de próstata, como outros tipos de cancro e doenças. “Pedalar, assim como correr e outras atividades físicas, na verdade contribui para evitar obesidade e colesterol alto”.

O fisioterapeuta Fernando Rianho, que é bike fitter e expert do Ativo.com, salienta a importância de um profissional capaz de orientar o ciclista quanto ao ajuste do selim e a escolha do melhor tipo dessa peça para a bicicleta. “Com o selim ideal e bem ajustado, a pressão é mais bem distribuída e a região do períneo fica livre de pressões indesejadas, já que são os ísquios (osso que constitui a zona inferior da pélvis, o quadril) que devem estar bem apoiados. De nada adianta apenas tentar um ajuste do posicionamento na bicicleta se o ciclista não estiver com um selim ideal para ele”, justifica Rianho, que destaca também o papel prestado pelos selins anatômicos. “Eles normalmente têm seu centro vazado, o que, além de diminuir a pressão na região do períneo, promove também melhor controle de temperatura da região”.

Ainda segundo o especialista, o ajuste de todas as bikes deve se basear nas características físicas individuais de cada ciclista, para melhor conforto e consequentemente um melhor aproveitamento da pedalada. “Todas as bicicletas devem estar ajustadas de acordo com as característica físicas únicas do ciclista. E o selim é o principal ponto de contato entre o ciclista e a bicicleta, pois o posicionamento da pelve é que irá determinar o posicionamento do restante do corpo.”

 

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